Editora Artesanias: porque é preciso sonhar com uma sociedade mais justa e solidária
- Paula Quental

- há 21 horas
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Com foco principal em não ficção, temos interesse em publicar títulos de todas as áreas das humanidades, em especial de sociologia, história, economia, política, jornalismo e estudos culturais
O sonho é o ponto de partida para mudar uma realidade injusta, sem prazer, sem propósito, sem graça. E os livros ajudam a sonhar, como também ajudam a construir utopias, a questionar e a pensar. Uma boa reflexão sobre nós mesmos e sobre o mundo pode ser um primeiro passo para mover montanhas. E é por aí que surge a ideia da Editora Artesanias.
Há uma história pessoal por trás: a minha carreira jornalística, que se deu principalmente em São Paulo, embora seja eu carioca, certa credibilidade conquistada ao longo dos anos entre meus pares e entre clientes da minha agência de conteúdo, amor pelos livros desde a infância e, sim, posições políticas claras. Ainda que, é preciso dizer, a postura agnóstica seja da minha essência. Encaro o mundo sempre com curiosidade e peito aberto. E nada está imune a questionamentos. Sem dogmas.
Hoje o que penso é que precisamos construir uma sociedade mais justa, igualitária, solidária e em harmonia com a natureza (da qual fazemos parte, aliás). Que é preciso resgatar algumas ideias fundantes do socialismo e prestar muita atenção ao que algumas pessoas andam fazendo a partir de princípios socialistas para mudar o mundo. Às vezes iniciativas pequeninas, localizadas. Mas extremamente potentes. Existem soluções, e é possível que muitas delas passem ao largo de instituições políticas mais tradicionais.
É sobre isso que a Editora Artesanias quer debater em seus livros. Mas não só. Com foco principal em não ficção, temos interesse em publicar títulos de todas as áreas das humanidades, em especial de sociologia, história, economia, política, jornalismo e estudos culturais.
Em obras de ficção procuramos celebrar a pluralidade de vozes, a experimentação de linguagem, a abordagem de temas desconfortáveis, muitas vezes invisíveis, mas também uma história envolvente e muito bem contada.
Mencionei que por trás da ideia da Editora Artesanias está uma história pessoal. Mas também há um contexto. Ela nasce como mais uma editora independente no país, parte de um movimento que vem ganhando força há mais de 15 anos. As editoras pequenas ou independentes (ou indie, como também são chamadas) trabalham com a publicação de livros sem vínculos com grandes grupos ou investidores. Lançam poucos títulos por mês, valem-se de mudanças tecnológicas relativamente recentes – como a possibilidade vender em lojas virtuais e a evolução da qualidade da impressão digital – e se apresentam como uma alternativa rápida e descomplicada para novos autores se lançarem no mercado editorial.
As pequenas editoras estão se organizando mundo afora em associações, como a Aliança dos Editores Independentes (AEI), com sede na França, e sua associada brasileira, a Liga Brasileira de Editoras (Libre). Defendem a “bibliodiversidade” da produção, as múltiplas vozes de que falei acima. O mundo vem exigindo essa diversidade.
O critério não é exatamente a busca do best-seller. Não é preciso ser o mais vendido, mas alcançar com sucesso um determinado nicho de público. Fazer livros numa sociedade em que se disputam minutos de atenção nas redes sociais digitais, e manter-se como empresa nos moldes do capitalismo, pode parecer loucura. E é mesmo.
Mas uma boa loucura se mostra essencial pra fazer a roda da cultura girar. E enquanto houver humanos, haverá essa “insanidade sã” (ou uma irracionalidade necessária), muitas histórias, criatividade e vontade de sonhar.
Paula Quental é jornalista, mestre pelo IEB-USP e fundadora da Editora Artesanias.



